Empresário iniciou a carreira como comprador internacional, inovou no setor contábil e transformou uma viagem à China — com uma escala inesperada nos Emirados Árabes — no ponto de partida de um ecossistema de negócios voltado ao comércio internacional.
Um voo cancelado costuma representar apenas um contratempo. Na trajetória de Leandro Monteiro, porém, uma mudança inesperada de rota se transformou no começo de uma nova fase empresarial.
O destino original era Guangzhou, na China, onde ele pretendia participar da Canton Fair e conhecer diretamente as fábricas que forneciam produtos aos clientes de sua empresa de contabilidade. A viagem exigira uma decisão difícil: com poucos recursos disponíveis, Monteiro vendeu o próprio carro para comprar a passagem. Sua esposa, Joana Monteiro, destinou o dinheiro da rescisão trabalhista para ajudar nas despesas de hospedagem e alimentação.
O voo que faria escala em Adis Abeba foi cancelado. A companhia aérea o transferiu para outra rota, dessa vez passando por Dubai.
Foi durante essa escala que, segundo relata o empresário, uma conversa casual em uma cafeteria mudou o rumo de seus negócios. Ao descobrir que Monteiro era brasileiro, um homem ligado à compra de café para uma rede com mais de 3 mil lojas perguntou se ele conseguiria fornecer o produto brasileiro.
Monteiro ainda estava a caminho da China, mas a pergunta permaneceu em sua cabeça durante toda a viagem.
Quando retornou ao Brasil, abriu uma empresa de comércio exterior, organizou uma rede de produtores e criou a própria marca de café. Nascia a Café Zeus, inicialmente estruturada a partir da produção de pequenos e médios cafeicultores do Sul de Minas Gerais.
O episódio se tornou um marco de uma história que conecta o subúrbio do Rio de Janeiro, a indústria chinesa, a produção brasileira e o mercado consumidor dos países árabes.
A confiança construída em Inhaúma
Leandro Monteiro nasceu em 23 de março de 1978, no Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro. Filho de um militar e de uma dona de casa, foi criado pelos avós Áurea e Adhemar, em Inhaúma, bairro da Zona Norte carioca.
Ao relembrar a infância, Monteiro costuma atribuir aos avós uma de suas principais características como empreendedor: a convicção de que as dificuldades podem ser superadas.
Uma das lembranças mais simbólicas envolve as partidas de xadrez com o avô, que frequentemente permitia que o neto vencesse. Para Monteiro, aquela experiência ajudou a construir uma confiança que mais tarde seria levada para os negócios.
“Enquanto eu não venço, acredito que o jogo ainda não acabou”, resume o empresário.

A formação no Colégio Militar do Rio de Janeiro acrescentou disciplina a essa confiança. Mais tarde, o interesse pelos estudos o levou a construir uma trajetória acadêmica ligada à administração, à contabilidade, à gestão de pessoas, à estratégia e à gestão pública.
Essa combinação entre disciplina, formação técnica e disposição para assumir riscos ajudaria a moldar sua maneira de empreender.
O primeiro contato com o comércio exterior
O início da carreira aconteceu na Varig, onde Monteiro trabalhou como comprador internacional. Foi ali que teve os primeiros contatos com importações, fornecedores estrangeiros e desembaraço aduaneiro.
A rotina, contudo, consumia grande parte de seu tempo. Determinado a continuar estudando, deixou a companhia aérea e seguiu para o Banco Itaú. A mudança permitiu que conhecesse mais profundamente o mercado financeiro, ampliando uma formação profissional que já não ficaria restrita a uma única área.
Os conhecimentos adquiridos no comércio exterior, no sistema bancário e na contabilidade voltariam a se encontrar anos depois.
A primeira grande iniciativa empresarial de Monteiro surgiu no setor contábil. Em um período no qual a digitalização dos escritórios ainda avançava lentamente, ele desenvolveu uma operação de contabilidade on-line, estruturada para atender empresas a distância, reduzir custos operacionais e ampliar a capacidade de atendimento.
O negócio contábil não permaneceu isolado. À medida que os clientes apresentavam novas dificuldades, outras soluções começaram a surgir ao redor da empresa.
Esse movimento se tornaria uma das características centrais de sua atuação: identificar um problema enfrentado pelo cliente e criar uma nova frente empresarial para resolvê-lo.
O problema dos intermediários
Entre os clientes da contabilidade estavam comerciantes que vendiam produtos fabricados na China. Apesar do volume de vendas, muitos compravam as mercadorias por meio de sucessivos intermediários, o que elevava os custos e reduzia as margens de lucro.
Monteiro decidiu investigar o problema na origem.
A proposta era viajar à China, conhecer os fabricantes, verificar a estrutura produtiva e estabelecer relações diretas. Em vez de aceitar a cadeia de atravessadores como parte inevitável do mercado, procuraria aproximar seus clientes das fábricas.
Foi essa decisão que o levou à Canton Fair, um dos principais encontros comerciais da indústria chinesa.
A viagem representava mais do que uma visita a uma feira. Tratava-se de buscar conhecimento prático sobre produção, negociação, controle de qualidade, personalização de produtos e logística internacional.
Com o tempo, as visitas à China passaram a integrar sua atividade empresarial. Monteiro também começou a organizar missões com empreendedores interessados em conhecer fábricas, negociar diretamente com fornecedores e desenvolver produtos com marcas próprias.
A lógica defendida por ele é objetiva: uma parte relevante da margem de um negócio é definida antes mesmo de o produto chegar ao país de destino. Conhecer a origem, eliminar atravessadores desnecessários e negociar diretamente com a indústria pode transformar a competitividade de uma empresa.
A escala que abriu as portas do mundo árabe
A China era o objetivo daquela primeira viagem, mas Dubai se tornaria a grande virada.
Depois do contato com o comprador interessado em café brasileiro, Monteiro percebeu que o Brasil tinha produtos desejados internacionalmente, mas muitos produtores não possuíam estrutura comercial, logística ou conhecimento para alcançar compradores estrangeiros.
A criação da Café Zeus foi uma resposta a essa oportunidade.
Como a quantidade demandada não poderia ser atendida por um único pequeno fornecedor, ele organizou uma cadeia de abastecimento com produtores de Minas Gerais. O café passou a ser apresentado não apenas como uma commodity brasileira, mas como um produto com marca, embalagem e posicionamento próprios.
A experiência demonstrou que o papel do empreendedor poderia ir além da fabricação. Era possível identificar a demanda, estruturar uma marca, reunir fornecedores, controlar padrões de qualidade e construir o canal de distribuição.
O café abriu caminho para outros alimentos e bebidas. Gradualmente, a operação passou a conectar produtores e fabricantes a compradores de diferentes mercados árabes.
As empresas lideradas por Monteiro passaram a manter relações comerciais envolvendo fornecedores de 53 países e distribuição para os 22 países árabes. Dubai tornou-se a base estratégica para administrar parte dessas conexões.
Mais do que vender um produto isolado, o objetivo passou a ser construir uma ponte entre quem sabe produzir e quem deseja comprar.

Da contabilidade a um ecossistema empresarial
A expansão dos negócios produziu uma estrutura diversificada. O núcleo inicialmente ligado à contabilidade passou a dar origem a iniciativas nos segmentos de comércio exterior, alimentos e bebidas, energia, tecnologia, construção civil e saúde.
Essa diversificação não ocorreu apenas pela busca de novos mercados. Em muitos casos, os negócios nasceram para resolver necessidades encontradas dentro da própria operação.
Uma empresa que importa precisa de fornecedores, inspeção, logística, documentação e distribuição. Uma empresa que exporta precisa de marca, embalagem, certificações, representação comercial e compradores. Ao integrar essas competências, Monteiro formou um ecossistema orientado à execução de projetos empresariais internacionais.
Na China, sua atuação se concentrou na aproximação com indústrias e no desenvolvimento de produtos personalizados. Nos Emirados Árabes Unidos, o foco passou a incluir representação comercial, armazenamento, distribuição e acesso aos mercados do Oriente Médio.
O Brasil permanece como uma das origens fundamentais dessa estratégia. Para Monteiro, o país possui alimentos, minérios, biodiversidade, produção agrícola, capacidade industrial e conhecimento com potencial de competir internacionalmente. O desafio está em transformar essas riquezas em produtos preparados para o mercado global.
Empreendedorismo como geração de riqueza
A visão de Monteiro sobre empreendedorismo ultrapassa a criação de uma empresa individual. Ele defende que a atividade empresarial é um mecanismo de geração de empregos, circulação de recursos e desenvolvimento econômico.
Em sua interpretação, um país aumenta sua riqueza quando consegue trazer recursos de outros mercados por meio de exportações, investimentos e serviços internacionais. Por isso, incentiva empresários brasileiros a enxergarem seus produtos para além das fronteiras nacionais.
Essa perspectiva também explica sua defesa do que chama de “empreendedor de si mesmo”: alguém que assume responsabilidade pela própria formação, identifica oportunidades e constrói soluções em vez de aguardar condições perfeitas.
O discurso, contudo, é acompanhado por uma visão prática do processo. Para Monteiro, empreender internacionalmente não significa simplesmente viajar, participar de uma feira ou abrir um perfil nas redes sociais.
É necessário constituir a empresa, desenvolver uma marca, preparar o produto, selecionar fornecedores, calcular preços, organizar documentos, compreender a cultura do comprador e garantir que a mercadoria seja entregue conforme o combinado.
A oportunidade pode aparecer em uma conversa inesperada. O negócio, porém, depende de estrutura e execução.
Da experiência empresarial à formação de novos empreendedores
Com o crescimento das operações, Monteiro passou a transformar parte da experiência acumulada em conteúdo educacional.
A esposa Joana, que já havia apoiado financeiramente sua primeira viagem à China, também é apontada por ele como uma das principais incentivadoras da criação de seu canal no YouTube, de cursos e de projetos voltados à capacitação empresarial.
A produção de conteúdo ampliou a presença pública do empresário. Viagens a fábricas, feiras internacionais, centros logísticos e zonas econômicas passaram a ser utilizadas para mostrar oportunidades e explicar os bastidores do comércio exterior.
Essa frente educacional evoluiu para cursos, publicações, missões empresariais e iniciativas como o Clube de Negócios LMA, que procura organizar a jornada de empresários interessados em preparar produtos e buscar compradores no mercado de Dubai.
Nesse modelo, diferentes equipes cuidam de áreas como contabilidade, tecnologia, design, embalagem, representação comercial, logística e suporte jurídico. A proposta é transformar um processo fragmentado em uma sequência coordenada, da estruturação da empresa à entrega internacional.
O trabalho de formação também revela uma mudança de papel. Monteiro deixou de atuar apenas como empresário que realiza suas próprias operações e passou a se apresentar como facilitador para outros empreendedores.
Conhecimento, relacionamento e execução
A trajetória de Leandro Monteiro pode ser compreendida como uma sequência de conexões.
O comprador internacional da Varig aprendeu os fundamentos do comércio exterior. A passagem pelo setor bancário trouxe contato com o mercado financeiro. A contabilidade on-line criou uma base de clientes empresariais. As dificuldades desses clientes o levaram às fábricas chinesas. Uma escala inesperada em Dubai revelou a demanda por produtos brasileiros. O café aproximou produtores nacionais de compradores árabes. E a experiência acumulada deu origem a um grupo empresarial com atuação internacional.
Nenhuma dessas etapas surgiu completamente isolada da anterior.
Ao longo desse percurso, três elementos aparecem de maneira recorrente: conhecimento, relacionamento e execução. O conhecimento permite identificar a oportunidade. O relacionamento conecta produtores, fornecedores e compradores. A execução transforma a conversa em produto, contrato e entrega.
A história da viagem à China poderia ser apresentada apenas como um episódio de sorte. Mas o voo cancelado, sozinho, não teria criado uma empresa. A oportunidade surgiu por acaso; a transformação daquela conversa em negócio exigiu repertório, risco, organização e capacidade de agir.
Do Rio de Janeiro à Dubai, passando por escritórios de contabilidade, bancos, fábricas chinesas e fazendas de café em Minas Gerais, Leandro Monteiro construiu uma trajetória marcada pela busca de mercados que ainda pareciam distantes para muitos empresários brasileiros.
Sua história mostra que o empreendedorismo internacional nem sempre começa com uma grande estrutura. Às vezes, começa com um problema concreto, uma passagem comprada com sacrifício e a disposição de responder “sim” antes de conhecer todos os passos do caminho.






